Artigos de física: V. Teoria quântica de campos

Esta página traz resumos em linguagem simples de artigos de física. Não fazemos ligação com Dost nem com outro texto; ler lado a lado é tarefa do próprio leitor.

Experimento: medido. Teoria: calculada ou demonstrada. Interpretação: seu significado é disputado. Os rótulos são nossa própria classificação; um artigo pode ter mais de uma natureza.

21. A Equação de Dirac

Pergunta principal: Como a mecânica quântica se combina com a relatividade restrita?

Em meados da década de 1920, a equação de Schrödinger descrevia muito bem os átomos, mas não se conformava à relatividade restrita: não tratava o tempo e o espaço em pé de igualdade. O "spin" do elétron, por sua vez, entrava na teoria depois, como um acréscimo inexplicado. A equação de Dirac responde a esta pergunta: podemos descrever o elétron por uma única equação que obedeça tanto à mecânica quântica quanto à relatividade? Neste artigo, a noção de spin e a questão da antipartícula da partícula (antimatéria) aparecem como consequências dessa equação.

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  1. 21. A Equação de Dirac
  2. Dirac 1928 — The quantum theory of the electron
  3. 22. Eletrodinâmica Quântica (QED)
  4. Schwinger 1948 — On Quantum-Electrodynamics and the Magnetic Moment of the Electron
  5. Feynman 1949 — Space-Time Approach to Quantum Electrodynamics
  6. 23. Renormalização
  7. Wilson 1971 — Renormalization Group and Critical Phenomena. I. Renormalization Group and t

Dirac 1928 — The quantum theory of the electron

Proceedings of the Royal Society A 117, 610-624 teoria

Dirac estabeleceu, para o elétron pontual, uma equação de onda que obedece tanto à relatividade quanto à teoria geral das transformações da mecânica quântica.

O artigo começa por uma lacuna. A mecânica quântica até então, com o elétron pensado como carga pontual, não conseguia descrever por completo os espectros atômicos: o número de estados estáveis observados era o dobro do que a teoria dava. Goudsmit e Uhlenbeck haviam atendido a essa duplicidade dando ao elétron um modelo que gira em torno do próprio eixo e tem momento magnético; Pauli o havia incorporado à mecânica quântica. Dirac pergunta por que esse modelo é o que a natureza escolheu e pensa que a lacuna pode estar em outro lugar: as teorias anteriores não se conformavam à relatividade.

Dirac busca o operador hamiltoniano mais simples que satisfaça as condições tanto da relatividade restrita quanto da teoria geral das transformações da mecânica quântica. A equação que encontra depende do tempo e do espaço da mesma maneira, isto é, em primeira ordem. Por isso a função de onda não é um único número, mas um objeto de quatro componentes. Segundo o resumo do artigo, essa forma mais simples explica, sem nenhuma suposição adicional, o conjunto dos fenômenos da "duplicidade". O spin deixa de ser algo acrescentado ao modelo de fora e sai da própria equação.

O resumo diz que também há uma parcela de verdade no modelo do elétron girante, mas que o modelo continua válido como primeira aproximação. Sua maior falha é que o momento angular orbital total de um elétron em órbita não é constante, como o modelo espera. Ou seja, o resultado de Dirac é apresentado não como um modelo, mas como uma necessidade teórica.

Uma das consequências práticas da equação é a estrutura fina dos átomos semelhantes ao hidrogênio: a interação do spin com o movimento orbital dá espontaneamente a pequena separação dos níveis de energia. Outra é que o momento magnético do elétron resulta do spin e da carga com um valor definido; esse valor foi depois comparado com medições. O limite do artigo também se vê aqui: a equação foi estabelecida como equação de onda de uma única partícula e, por si só, não descrevia os casos em que partículas são criadas e aniquiladas.

Depois: As soluções de energia negativa da equação levaram Dirac, por volta de 1931, a propor a existência da antipartícula do elétron; o pósitron foi observado em 1932 por Anderson em fotografias de raios cósmicos e publicado em 1933 (fonte: anderson-1933). Pode-se dizer que a equação foi ponto de partida para as teorias posteriores e que a passagem à teoria quântica de campos se fez por meio dela.

22. Eletrodinâmica Quântica (QED)

Pergunta principal: Como se explica a interação entre luz e matéria?

A eletrodinâmica quântica (QED) é a teoria que descreve a interação de partículas carregadas (por exemplo, elétrons) com a luz, isto é, com fótons. É pensada como o equivalente quântico do eletromagnetismo. No início da década de 1940, os cálculos feitos com essa teoria davam resultados infinitos quando chegavam às correções mais finas. A questão era: é possível administrar essas infinitudes de modo consistente e chegar a números mensuráveis? Os trabalhos de Feynman e Schwinger de 1948-49 responderam a essa pergunta em duas linguagens diferentes, mas produzindo os mesmos números.

Schwinger 1948 — On Quantum-Electrodynamics and the Magnetic Moment of the Electron

Physical Review 73, 416-417 teoria

Schwinger calculou a primeira correção quântica ao momento magnético do elétron e a comparou com o valor medido.

Esta é uma carta curta, de duas páginas. A equação de Dirac dizia que o momento magnético do elétron resultaria, a partir de seu spin e de sua carga, em um valor exatamente definido. As medições feitas em 1947, porém, mostraram que esse valor era maior por algumas partes em mil. A pergunta era: esse pequeno desvio poderia ser uma correção vinda da interação do campo de luz com o elétron?

Schwinger reorganizou a eletrodinâmica quântica de modo a reunir parte das infinitudes na massa e na carga medidas, e calculou a correção de primeira ordem. O resultado saiu finito: o momento magnético do elétron é cerca de (1 + α/2π) vezes o valor de Dirac; aqui α é a constante de estrutura fina, de cerca de 1/137. Ou seja, a correção é, grosso modo, da ordem de 0,1 por cento. Esse valor era compatível com a medição feita na época.

A importância do artigo não está em um único número, mas no método: as partes da teoria que dão infinitudes são separadas das grandezas mensuráveis e, "renormalizadas", dão um resultado com sentido. Uma sistematização mais geral dessa abordagem foi feita nos anos seguintes.

A brevidade da carta é um limite: a dedução detalhada e as ordens superiores foram deixadas para outros artigos. Além disso, essa primeira correção é um único número; para testar a teoria, são necessárias ordens superiores e outras medições. Ainda assim, o fato de o cálculo sair finito mostrou, pela primeira vez de modo concreto, que de uma teoria que até então dava resultados infinitos se podia obter uma previsão mensurável.

Este resumo foi escrito sem consultar o resumo ou o texto do próprio artigo, com base em um relato conhecido; deve ser conferido com a fonte.

Depois: O momento magnético do elétron foi calculado e medido até ordens muito mais altas nas décadas seguintes; diz-se que a QED é uma das teorias testadas com maior precisão. Por esse trabalho, Schwinger dividiu com Feynman e Tomonaga o Prêmio Nobel de Física de 1965.

Feynman 1949 — Space-Time Approach to Quantum Electrodynamics

Physical Review 76, 769-789 teoria

Feynman reconstruiu a QED sobre o espaço-tempo, na linguagem dos caminhos que as partículas seguem, e deu as regras que facilitam os cálculos.

O artigo de Feynman é outra maneira de expor a QED. Na mecânica quântica, a probabilidade de uma partícula ir de um ponto a outro é encontrada somando as contribuições de todos os caminhos possíveis; Feynman aplica isso à interação eletromagnética. Elétrons e fótons são tratados como objetos que enviam e recebem um ao outro, como a luz, no espaço-tempo, e cada interação corresponde, por uma regra, a uma determinada contribuição.

Essas regras são mostradas por desenhos depois chamados de "diagramas de Feynman": uma linha é o caminho de uma partícula e um vértice é uma interação. Os diagramas não são apenas figuras; a cada um corresponde uma expressão matemática a ser escrita. Assim, cálculos longos e sujeitos a erros se tornam ordenados pela contagem de quais diagramas podem ser desenhados.

O artigo mostra também como tratar a parte da interação entre luz e matéria que dá infinito. As infinitudes são separadas por serem redefinidas com a massa e a carga medidas; resta um resultado finito e comparável. Essa parte dá os mesmos números que o trabalho de Schwinger nos mesmos anos.

A força do artigo está na facilidade, mas ele também tem um limite: o método se apoia em uma expansão em série irregular, isto é, na sequência de diagramas que podem ser desenhados, e essa série não funciona quando a interação é muito forte. Na QED, como a constante de acoplamento é pequena, cerca de 1/137, poucos diagramas costumam dar precisão suficiente.

Este resumo foi escrito sem consultar o resumo ou o texto do próprio artigo, com base em um relato conhecido; deve ser conferido com a fonte.

Depois: Em 1949, Dyson mostrou que as formulações de Feynman, Schwinger e Tomonaga eram apresentações diferentes da mesma teoria. Os diagramas de Feynman tornaram-se depois a ferramenta de cálculo padrão não só na QED, mas no resto da física de partículas.

23. Renormalização

Pergunta principal: Por que surgem as infinitudes na teoria quântica de campos?

Na teoria quântica de campos, ao calcular a interação de uma partícula com o seu próprio campo, é preciso somar também as distâncias muito curtas e as energias muito altas; a soma pode ir ao infinito. A renormalização é o modo de obter resultados finitos absorvendo essas infinitudes nas grandezas medidas. O trabalho de Wilson de 1971 olhou o tema de novo como uma questão de escala: se examinamos um sistema dando "zoom" em tamanhos diferentes, como mudam os parâmetros? A questão diz respeito tanto à origem das infinitudes quanto a por que esse método funciona.

Wilson 1971 — Renormalization Group and Critical Phenomena. I. Renormalization Group and the Kadanoff Scaling Picture

Physical Review B 4, 3174-3183 teoria

Wilson uniu o grupo de renormalização, que descreve a mudança de escala nos fenômenos críticos, ao quadro de escala de Kadanoff.

À primeira vista, o artigo não trata da teoria de campos, mas dos fenômenos críticos. Quando um fluido se aproxima de seu ponto crítico ou um ímã chega à temperatura de Curie, o comportamento do sistema começa a parecer semelhante em todas as escalas e as grandezas medidas seguem leis de potência com expoentes definidos. Kadanoff havia proposto uma ideia para explicar isso: agrupar spins vizinhos em blocos e pensar no bloco como um novo "spin único".

Wilson transforma essa ideia em uma teoria sistemática. Ao mudar a escala a cada bloco, observa-se como mudam os parâmetros que descrevem o sistema (como as constantes de acoplamento); essa mudança pode ser pensada como uma espécie de "fluxo". Alguns pontos permanecem fixos nesse fluxo (pontos fixos), e o comportamento crítico é determinado em torno desses pontos fixos. Assim, a razão das leis de potência e da universalidade (sistemas muito diferentes compartilharem os mesmos expoentes) pode ser entendida como os detalhes perderem importância à medida que a escala diminui.

Este trabalho não responde, por si só, ao problema das infinitudes, mas traz à teoria de campos este olhar: a teoria pode ser considerada uma descrição efetiva válida até uma certa energia, e os detalhes das altas energias são absorvidos nos parâmetros de baixa energia.

O limite do artigo é o seu campo direto de aplicação: o assunto aqui tratado são os fenômenos críticos; sua aplicação à teoria quântica de campos é o transporte da mesma ideia, com matemática semelhante, para outro campo. A questão de como os parâmetros mudam com a escala é hoje estudada, em uma linguagem comum, tanto na física do estado sólido quanto na física de partículas.

Este resumo foi escrito sem consultar o resumo ou o texto do próprio artigo, com base em um relato conhecido; deve ser conferido com a fonte.

Depois: Por esses trabalhos, Wilson recebeu o Prêmio Nobel de Física de 1982. A visão da teoria efetiva obteve ampla aceitação na teoria de campos; contudo, o que as infinitudes significam "de fato" continua sendo um assunto debatido filosoficamente.